

Prompt / Lyrics
Antes do mar chamar pelo nome, já a cidade escutava o vento. À beira do rio, entre lama e sal, nascia o futuro em cada batimento. A cidade era pequena, mas tinha mãos grandes, mãos de carpinteiros, ferreiros, gente dura, firme como as margens. Martelo bate, serrote canta, o dia começa antes do sol. A madeira chega molhada do rio, cheira a pinho, a resina, a suor. Cada tábua cortada era um risco, cada erro podia ser o fim, mas a cidade acreditava que o mar também começa assim. Do fogo nasceu o ferro, do ferro nasceu a força, pregos entraram como promessas cravadas na carne da proa. A cidade pôs no barco a alma, o medo, a fé e a oração, pôs o nome dos filhos ausentes gravado no fundo do coração. A caravela ergueu-se lenta, como casa que aprende a andar, velas brancas como lençóis de quem sonha antes de zarpar. Cordas cruzadas como ruas, mastros altos como torres, no casco levava o sotaque dos pobres, dos fortes, dos que não fogem. Quando a caravela partiu, a cidade ficou parada, ninguém falava alto no cais, só o sino e a água salgada. Mulheres ficaram nas janelas, homens calaram a dor, crianças aprenderam cedo que o mar também leva amor. Dias viraram meses, meses viraram espera, a cidade envelheceu um pouco em cada maré que passava lenta. Mas quando o barco voltou, o cais virou grito e luz, trouxe histórias, trouxe mundo, trouxe riqueza e trouxe cruz. Com o regresso nasceram ruas, casas novas, pedra sobre pedra, igrejas subiram ao céu pedindo perdão ao que o mar leva. A cidade cresceu torta e viva, feita de chegada e partida, com comércio, línguas misturadas, e cicatrizes da própria vida. Nem tudo foi glória ou ouro, houve sangue escondido no chão, o progresso teve seu preço pago em silêncio e submissão. Mas a cidade aprendeu com o tempo a lembrar sem se ajoelhar, sabendo que foi ela, o povo, quem fez o barco atravessar. A cidade construiu a caravela, a caravela construiu a cidade, um laço feito de madeira e mar, de coragem, dor e identidade. E ainda hoje, quando o vento passa pelas ruas junto ao rio antigo, ouve-se a cidade dizer baixinho: “Fui eu que te fiz, caravela. E contigo aprendi a ser caminho.”
Tags
rock, Arena rock ballad with soaring choirs and full orchestra under a gritty band: clean electric guitar and piano carr
4:46
No
1/18/2026